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Brasil · Política externa

Quando a afinidade ideológica desloca o interesse nacional

A participação de Javier Milei na campanha presidencial brasileira provocou uma resposta formal do Itamaraty. Ainda não há ruptura nem represália econômica, mas a Argentina enfraqueceu desnecessariamente sua interlocução com o país que concentra alguns de seus interesses industriais, energéticos e regionais mais importantes.

Autor: Alejandro Taibi · Data de corte: 31 de julho de 2026

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Por que importa

Em junho de 2026, o Brasil foi o principal parceiro comercial argentino, com um intercâmbio mensal de 2,593 bilhões de dólares e cadeias industriais integradas. Sobre essa relação se apoiam a indústria automotiva, a saída do gás de Vaca Muerta e o respaldo regional à reivindicação argentina sobre as Malvinas.

O presidente argentino envolveu a representação do Estado nacional numa disputa eleitoral estrangeira e ofendeu publicamente, em território brasileiro, o chefe de Estado e integrantes do Poder Judiciário do principal parceiro comercial da Argentina.

Em 25 de julho de 2026, Milei participou em São Paulo do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Durante o ato, desqualificou Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. No dia seguinte, o chanceler Mauro Vieira convocou o embaixador argentino Daniel Raimondi para exigir explicações e chamou para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli. O Itamaraty afirmou que não havia precedentes de um presidente estrangeiro que, em território brasileiro, concentrasse ofensas contra o chefe de Estado, as instituições democráticas e o povo do Brasil.

Um chamado para consultas não equivale à ruptura de relações diplomáticas. É uma medida formal de protesto pela qual um governo determina o retorno temporário de seu embaixador para receber informações, avaliar a situação e comunicar seu descontentamento. Pode ser seguido por uma normalização do vínculo ou tornar-se o primeiro degrau de uma crise maior.

Tudo indica que o conflito não escalará para sanções econômicas, restrições comerciais nem suspensão de acordos bilaterais. O risco, portanto, é a degradação do ambiente político no qual se administram interesses argentinos concretos.

O erro argentino

Os governos argentinos podem ter afinidades ideológicas com determinadas forças estrangeiras. Os partidos políticos, além disso, têm plena liberdade para construir vínculos internacionais.

O problema surge quando um chefe de Estado usa sua investidura para participar ativamente da campanha eleitoral de outro país. Nesse momento, a afinidade partidária deixa de ser um assunto político privado e passa a produzir consequências entre Estados.

O Brasil é uma estrutura permanente de poder. O bolsonarismo é uma das forças que disputam sua condução.

Ao intervir em favor de Flávio Bolsonaro, Milei subordinou a relação bilateral ao resultado das eleições brasileiras de 4 de outubro de 2026. Se o candidato apoiado pelo presidente argentino fosse derrotado, a Argentina teria de administrar seus interesses nos anos seguintes com as autoridades que seu chefe de Estado ofendeu publicamente.

Mesmo que o bolsonarismo vencesse, permaneceria um precedente problemático, a aceitação de que presidentes estrangeiros participem de campanhas nacionais e questionem, a partir do próprio território, as instituições do país anfitrião.

Esse precedente não beneficia a Argentina sob nenhuma perspectiva. O princípio de não intervenção protege especialmente os Estados com menor capacidade relativa de influir sobre seus vizinhos. Normalizar sua violação pode permitir que atores externos intervenham em futuras eleições, conflitos institucionais ou debates internos argentinos.

Uma política externa autônoma consiste em evitar que se reduzam as opções disponíveis para defender interesses permanentes.

O Brasil não é um parceiro substituível

Em junho de 2026, o Brasil foi o principal parceiro comercial da Argentina. Segundo o INDEC, as exportações argentinas para esse mercado chegaram a 1,176 bilhão de dólares e as importações somaram 1,417 bilhão. O intercâmbio bilateral mensal foi de 2,593 bilhões de dólares e deixou um déficit argentino de 241 milhões.

A importância brasileira não se explica apenas pelo volume comercial. Uma parte significativa do vínculo é composta por manufaturas, bens intermediários e cadeias de produção integradas.

O caso mais evidente é a indústria automotiva. O intercâmbio setorial é regulado pela Política Automotiva Comum e por sucessivos protocolos do Acordo de Complementação Econômica nº 14. Em janeiro de 2026, o Ministério da Economia argentino ainda precisava estabelecer procedimentos específicos para distribuir as cotas de exportação de veículos para o Brasil.

Isso significa que a relação industrial não funciona apenas com decisões privadas. Exige coordenação entre ministérios, aduanas, órgãos técnicos, fabricantes e autoridades reguladoras.

Uma crise diplomática não precisa produzir um embargo para gerar custos. Pode diminuir a vontade política de resolver com rapidez divergências sobre cotas, certificações, homologações, regras de origem ou controles de fronteira.

Esses custos, que formalmente não são represálias, funcionam na prática como tais. Podem aparecer como atrasos administrativos, menor prioridade política ou endurecimento técnico de trâmites que antes se resolviam por meio da cooperação.

Não há evidência de que o Brasil vá adotar uma estratégia dessa natureza. Mas a função de uma análise de risco é justamente identificar os mecanismos pelos quais uma crise política poderia se transferir para áreas materiais.

Vaca Muerta também depende do Brasil

A integração energética é outro ponto de exposição.

Argentina e Brasil mantêm um grupo de trabalho bilateral para estudar a infraestrutura, a regulação e a viabilidade econômica das exportações de gás natural argentino para o mercado brasileiro. Em abril de 2026, o Ministério de Minas e Energia publicou um relatório técnico com alternativas para desenvolver essa conexão.

O memorando bilateral prevê avaliar diferentes rotas e ampliar progressivamente a capacidade de transporte. As estimativas brasileiras contemplaram a possibilidade de passar de dois milhões de metros cúbicos diários no curto prazo para trinta milhões até 2030, desde que existam condições de infraestrutura, preço e segurança regulatória.

Para a Argentina, o Brasil pode se tornar uma fonte de demanda estável para o gás de Vaca Muerta. Essa demanda ajudaria a justificar infraestrutura, ampliar a escala de produção e gerar exportações de longo prazo.

Mas o Brasil dispõe de alternativas de produção própria, gás natural liquefeito, energia hidrelétrica e outros esquemas de integração regional. A Argentina precisa competir para que sua oferta seja considerada conveniente e prioritária.

Deteriorar a relação presidencial reduz a capacidade argentina de impulsionar o projeto, resolver obstáculos e obter decisões políticas favoráveis.

O custo invisível: perder capacidade de interlocução

O poder diplomático não se mede apenas pelo número de embaixadas ou de declarações conjuntas. Expressa-se na capacidade de acessar uma autoridade, obter uma resposta, acelerar uma negociação ou impedir uma decisão adversa.

Quando uma relação presidencial se deteriora, os canais encontram menor respaldo político e menor capacidade de destravar conflitos.

O Brasil tem capacidade de influir sobre questões centrais para a Argentina, como o funcionamento do Mercosul, as negociações comerciais externas, a integração energética, a indústria automotiva, a infraestrutura regional, a administração de fronteiras e a cooperação nuclear.

Em junho de 2026, os países do Mercosul continuavam negociando a digitalização aduaneira, o intercâmbio de informações e a gestão coordenada de fronteiras. São áreas aparentemente técnicas que, no entanto, exigem confiança e cooperação constante.

Uma relação bilateral pode conservar todos os seus tratados e, ao mesmo tempo, perder eficácia política.

Esse é o principal risco da crise. Mais do que uma represália espetacular, preocupa a acumulação de pequenos custos derivados de uma menor disposição brasileira para considerar prioridades argentinas.

Malvinas e a construção de apoios

A dimensão regional tampouco pode ser ignorada.

Em 30 de junho de 2026, menos de um mês antes do conflito, os presidentes dos Estados do Mercosul e associados reiteraram seu respaldo aos direitos argentinos na disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas. O Brasil participou dessa declaração.

Não há evidência de que o governo brasileiro pretenda modificar sua posição histórica em consequência das ofensas de Milei. Seria incorreto apresentar esse cenário como uma represália provável ou imediata. Contudo, os apoios internacionais não são recursos automáticos. Precisam ser cultivados, renovados e traduzidos em ações diplomáticas concretas. Um país que precisa de apoio para suas reivindicações territoriais não deveria desgastar sem necessidade as relações com quem sustenta sua posição nos foros regionais.

Essa conduta enfraquece a autoridade argumentativa argentina, ainda que não altere a validade jurídica de suas reivindicações.

Uma política para o Brasil, não para Lula ou Bolsonaro

O Brasil é um parceiro estrutural, e a competição bilateral não elimina a necessidade de cooperação. Os conflitos ideológicos devem ficar separados das áreas estratégicas, o Estado argentino não deve intervir em eleições brasileiras e os canais institucionais devem ser suficientemente sólidos para resistir às anomalias do sistema político argentino.

Isso não significa, de modo algum, adotar uma posição subordinada diante de Brasília. Argentina e Brasil têm interesses convergentes, mas também disputam investimentos, mercados, infraestrutura e influência regional. Justamente por isso é necessária uma política externa profissional orientada unicamente pelo interesse nacional.

O Brasil não é uma disputa partidária interna nem uma etapa de uma batalha cultural transnacional. É o Estado com o qual a Argentina compartilha a relação econômica, industrial e estratégica mais densa da América do Sul.

Confundir essas duas dimensões pode satisfazer uma afinidade ideológica imediata. Para o interesse nacional argentino, constitui uma perda voluntária de poder.

Fontes

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