← Todas as análises em português

Brasil · Política externa · Leitura argentina

Brasil sob pressão: cinco frentes geopolíticas que estão reorganizando a América do Sul

As tarifas estadunidenses, a disputa sobre as eleições brasileiras, a securitização do crime organizado, a crise com a Argentina e a aproximação com a China não são acontecimentos desconexos. Em conjunto, revelam uma luta crescente para determinar a orientação internacional do Brasil e, por extensão, o equilíbrio de poder sul-americano.

Autor: Alejandro Taibi · Data de corte: 5 de agosto de 2026

EspañolEnglishFrançais

Por que importa

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e o país com o qual ela compartilha a Bacia do Prata, a Hidrovia e as cadeias automotiva, energética e nuclear. Tudo o que condiciona as decisões brasileiras condiciona, um degrau depois, a margem de manobra argentina.

A agenda dos meios brasileiros dos últimos dias está dominada por cinco acontecimentos de natureza diferente, mas ligados por uma mesma questão estratégica, a de saber quem terá capacidade de condicionar as decisões soberanas do Brasil.

Pressões comerciais, questionamentos eleitorais, redefinições de segurança, intervenção de mandatários estrangeiros na campanha brasileira e ofertas chinesas de cooperação estratégica se acumulam sobre um país que se aproxima de uma eleição presidencial decisiva.

O que está em discussão vai além de quem governará o Brasil. Estão em disputa sua orientação internacional, o grau de autonomia de sua política externa, o controle de seus recursos estratégicos e a posição que ocupará na competição entre os Estados Unidos e a China.

1. A coerção comercial estadunidense

A primeira frente é econômica.

O governo de Donald Trump impôs uma tarifa adicional de 25% sobre uma parte considerável das exportações brasileiras. Depois acrescentou outra sobretaxa de 12,5%, fundamentada em supostas deficiências brasileiras para impedir a entrada de produtos elaborados com trabalho forçado.

Embora as exceções diminuam o impacto agregado, algumas exportações podem ficar sujeitas a cargas acumuladas de até 37,5%. Os setores afetados incluem manufaturas, calçados, vestuário, produtos químicos, bens industriais e outros segmentos sensíveis para a capacidade produtiva brasileira.

O conflito supera amplamente uma disputa tarifária. Durante as negociações, Washington teria pedido que o Brasil eliminasse unilateralmente tarifas sobre determinados bens industriais, químicos, automotivos e aeroespaciais estadunidenses. O Brasil considerou que algumas dessas concessões eram juridicamente incompatíveis com sua política comercial e estrategicamente inaceitáveis.

O governo brasileiro anunciou que recorrerá à Organização Mundial do Comércio e que avalia aplicar a Lei de Reciprocidade Econômica. Entre as respostas estudadas aparecem medidas sobre propriedade intelectual, royalties audiovisuais, patentes farmacêuticas e setores particularmente sensíveis para as empresas estadunidenses.

Do ponto de vista geopolítico, os Estados Unidos estão usando seu mercado como instrumento de pressão. O objetivo já não parece limitado a corrigir um desequilíbrio comercial. Pretende-se obter mudanças em áreas regulatórias, digitais e industriais que pertencem ao núcleo decisório do Estado brasileiro.

O caso do Pix é especialmente significativo. Sua inclusão entre as práticas questionadas por Washington mostra que as infraestruturas financeiras nacionais se tornaram objetos de competição estratégica. Uma plataforma pública eficiente pode reduzir a intermediação de empresas privadas estrangeiras e, por isso, adquirir uma dimensão geopolítica.

A questão central para o Brasil é decidir se preservará seus instrumentos nacionais de desenvolvimento ou se aceitará condicionar sua política econômica em troca de acesso preferencial ao mercado estadunidense.

2. A soberania eleitoral como novo campo de disputa

A segunda frente se desenvolve dentro do sistema político brasileiro.

O Brasil negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao país e manter contatos ligados ao processo eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou que a embaixada estadunidense havia pedido uma reunião, embora não tivesse comunicado formalmente o conteúdo da agenda. Washington negou que a missão tivesse o propósito de interferir nas eleições.

Segundo funcionários brasileiros citados pela imprensa, a delegação buscava discutir integridade eleitoral, liberdade de expressão e funcionamento das urnas eletrônicas. Para Brasília, a iniciativa podia reforçar uma campanha destinada a instalar dúvidas sobre a legitimidade do sistema de votação antes das eleições presidenciais.

A gravidade do episódio não depende de provar antecipadamente uma operação eleitoral estrangeira. O problema reside em que funcionários de uma potência externa pretendiam intervir numa controvérsia que faz parte da disputa política interna brasileira.

As missões de observação eleitoral são legítimas quando atuam dentro de acordos institucionais, regras previamente estabelecidas e mecanismos multilaterais. São mais problemáticas quando uma potência escolhe interlocutores, formula questionamentos unilaterais ou se aproxima de uma das forças em disputa.

O Brasil já convidou organizações como a OEA, a União Europeia, o Parlasul, o Centro Carter e redes internacionais de órgãos eleitorais. O contraste entre uma observação multilateral regulada e uma missão política bilateral é o ponto central da controvérsia.

A soberania eleitoral tornou-se assim uma dimensão específica da soberania nacional. No século XXI, a intervenção estrangeira não precisa assumir a forma clássica de um golpe de Estado. Pode operar por meio de questionamentos reputacionais, sanções seletivas, plataformas digitais, campanhas de deslegitimação e reconhecimento antecipado ou condicionado de resultados.

3. Do crime organizado ao «terrorismo»: o risco de uma jurisdição expansiva

A terceira frente afeta diretamente o controle brasileiro sobre seu território.

Os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. O governo brasileiro rejeitou a equiparação entre crime organizado e terrorismo, argumentando que os dois fenômenos têm motivações, estruturas e tratamentos jurídicos diferentes.

O chanceler Mauro Vieira advertiu que a classificação estadunidense poderia gerar consequências financeiras, migratórias e penais para cidadãos e empresas brasileiras, e que poderia servir de pretexto contra a soberania nacional.

Não se trata de minimizar a ameaça do narcotráfico. As organizações criminosas brasileiras controlam territórios, redes financeiras, rotas internacionais, portos e conexões de fronteira. Constituem uma ameaça efetiva à autoridade estatal.

Mas a classificação do problema não é neutra.

Quando uma potência estrangeira chama de «terrorista» uma organização que opera dentro de outro Estado, amplia sua capacidade de aplicar sanções, perseguir ativos, impor obrigações a instituições financeiras e justificar ações extraterritoriais. A cooperação policial pode transformar-se, gradualmente, numa pretensão de jurisdição externa.

O governo brasileiro sustenta que o combate ao crime organizado deve ser aprofundado com troca de inteligência, persecução da lavagem de dinheiro, recuperação de ativos, controle de armas e operações policiais coordenadas. O que rejeita é que Washington determine unilateralmente a natureza jurídica do problema e as consequências aplicáveis dentro do Brasil.

Esse debate é crucial para toda a América do Sul. Se a doutrina do «narcoterrorismo» for normalizada, os Estados Unidos poderiam ampliar consideravelmente sua margem de intervenção regional, especialmente em países com organizações criminosas transnacionais, recursos estratégicos ou instituições enfraquecidas.

4. A crise com a Argentina e a penetração da disputa brasileira no Mercosul

A quarta frente é particularmente relevante para a Argentina.

O presidente Javier Milei participou no Brasil da convenção que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Durante o ato, atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

O governo brasileiro respondeu chamando para consultas seu embaixador em Buenos Aires e convocando o representante argentino em Brasília. A diplomacia brasileira afirmou que as declarações de Milei haviam ultrapassado os limites toleráveis da confrontação política entre governos.

O chamado de um embaixador para consultas não equivale à ruptura de relações, mas é um dos gestos mais severos disponíveis antes de reduzir formalmente o vínculo diplomático.

A questão de fundo vai além das ofensas. Trata-se da participação do presidente argentino na disputa eleitoral brasileira.

Quando um chefe de Estado se desloca ao território de outro país para apoiar um candidato de oposição, atacar o presidente em exercício e questionar integrantes de seu Poder Judiciário, deixa de agir exclusivamente como dirigente ideológico. Suas declarações adquirem o peso institucional do Estado que representa.

A crise compromete o núcleo do sistema sul-americano. Brasil e Argentina registraram em 2025 um intercâmbio comercial próximo de 32 bilhões de dólares. Além disso, as cadeias automotivas, energéticas, industriais, nucleares, militares e agroalimentares dos dois países apresentam diferentes graus de interdependência.

A consequência mais grave seria que o Brasil deixasse de considerar a Argentina um parceiro estratégico estável e passasse a percebê-la como uma plataforma de penetração de interesses externos ou de confrontação ideológica contra o Estado brasileiro.

Para a Argentina, essa percepção seria enormemente prejudicial. O Brasil tem maior escala territorial, demográfica, industrial e diplomática e pode diversificar parcialmente suas alianças e mercados. A Argentina, por sua vez, não pode substituir facilmente o vínculo brasileiro sem pagar custos econômicos e estratégicos consideravelmente maiores.

5. A China oferece respaldo, mas também aprofunda a competição pelo Brasil

A quinta frente é a resposta chinesa.

Numa conversa de mais de uma hora, Lula e Xi Jinping concordaram em acelerar as tratativas para um eventual acordo entre a China e o Mercosul. Também discutiram cooperação em inteligência artificial, satélites, energia, fertilizantes, minerais críticos e processamento industrial de recursos.

Xi afirmou que a China apoiava o Brasil na defesa de sua soberania e independência diante da «interferência externa». A declaração ocorreu em meio às pressões estadunidenses e à crise causada pela participação de Milei na campanha brasileira.

Pequim procura apresentar-se como um parceiro respeitoso da autonomia brasileira. Mas seu interesse não é desinteressado.

O Brasil possui alimentos, hidrocarbonetos, minerais críticos, capacidade industrial, infraestrutura espacial, peso diplomático e uma localização estratégica sobre o Atlântico Sul. É, além disso, o único Estado latino-americano que reúne ao mesmo tempo escala continental, base industrial relevante, autonomia tecnológica parcial e capacidade de conduzir coalizões do Sul Global.

Para a China, consolidar o vínculo com o Brasil significa assegurar recursos, mercados, influência nos BRICS e presença na principal potência sul-americana. Para os Estados Unidos, impedir uma integração estratégica profunda entre Brasil e China é uma questão hemisférica prioritária.

O Brasil deixa de ser periferia passiva

As cinco notícias examinadas mostram que o Brasil já não pode se comportar como uma periferia passiva.

Seu mercado, seus minerais, suas eleições, seus sistemas digitais, suas redes financeiras, sua indústria e sua posição territorial foram incorporados à competição entre grandes potências. A pressão estadunidense e a oferta chinesa são expressões diferentes de um mesmo reconhecimento, o de que o Brasil tem uma escala que altera o equilíbrio hemisférico. A principal dificuldade brasileira será transformar essa importância potencial em poder efetivo.

Para isso precisará preservar a paz social e a coesão territorial, fortalecer a defesa, controlar suas infraestruturas críticas, desenvolver tecnologia própria, garantir a legitimidade do sistema eleitoral e evitar que a polarização interna permita a atores estrangeiros intervir na orientação estratégica do país.

A advertência para a Argentina

A Argentina deve observar o processo sem antolhos ideológicos.

Um Brasil enfraquecido, subordinado ou dividido internamente não beneficia necessariamente a Argentina. Pode tornar a América do Sul um espaço mais permeável a intervenções extrarregionais e reduzir a capacidade conjunta de negociar sobre comércio, energia, defesa, alimentos, infraestrutura e Atlântico Sul.

Mas um Brasil fortalecido sem uma estratégia argentina equivalente também pode ampliar a assimetria bilateral e consolidar uma divisão regional do trabalho desfavorável à industrialização argentina.

O interesse argentino exige uma política orientada a preservar o vínculo estrutural com o Brasil, evitar qualquer ingerência em seus processos internos e reconstruir capacidades nacionais que permitam negociar a partir de uma posição de maior equilíbrio.

A competição entre os Estados Unidos e a China já está reorganizando a América do Sul. O Brasil é sua peça principal. A Argentina deve decidir se participará desse reordenamento como Estado com estratégia própria ou como território disputado.

Fontes

A lista completa de fontes, com links para a imprensa argentina, brasileira e estadunidense, os comunicados oficiais e os dados do INDEC, está na versão original em espanhol.

Outras análises em português